Shigueo Yonashiro
Texto: cópia autorizada, de perfil publicado por Roberto Carlos Cação no seu livro “REMINICÊNCIAS:
vultos históricos da Paraguaçu Paulista”

Shigueo Yonashiro
Porta-voz da colônia japonesa em Paraguaçu
Focalizamos hoje aquele que foi, sem dúvida alguma, a mais importante personagem da integração da colônia
japonesa no seio da população de Paraguaçu Paulista. Não era japonês, mas filho de japoneses, aqui no Brasil
nascido (nissei). Quando jovem, sentiu na carne todas as dificuldades advindas do choque entre raças de um mesmo
grupo, a chamada raça branca, e a ainda incipientemente aclimatada raça amarela, por sua própria gênese ainda
pouco afeita a maiores contatos. Se esse fator, por si só, já era um enorme fardo a bloquear o perfeito
acasalamento de intenções, ressaltem-se, ainda, os graves problemas surgidos com o desenvolvimento da Segunda
Guerra Mundial. Se lá fora se travaram batalhas bélicas de grande poder destrutivo, aqui os choques apenas de
relacionamento também apresentaram resultados bastante nefastos, provocando um atraso de pelo menos vinte anos
para possibilitar uma efetiva integração entre brasileiros (considerados aqui também os demais imigrantes de
diversas origens) e nipônicos.
Foi assim que, somente um ano após o encerramento da guerra, mais precisamente em 1946, aqui surgiu um “nissei”
de nome Shigueo, provindo de Bauru, formado técnico em contabilidade, que, associando-se a José Jacob Ferreira,
instalou-se com seu “Escritório Paulista do Comércio”, na rua Pedro de Toledo, local onde hoje está instalada a
Vidraçaria Brasil. Nascido em Jaboticabal, aos 15/10/1918, filho de Kama Yonashiro e Matsu Yonashiro,
agricultores, residiu depois em Promissão (onde cursou a escola primária e fez seu aprendizado da língua
japonesa) e posteriormente em Bauru, onde se formou técnico em contabilidade. Logo após, já estabelecido em
Paraguaçu, casou-se com a Sra. Takeko Okuma Yonashiro, com quem teve os seguintes filhos: Shigueyuki, Luiz
Issao, Maria Casuê, Luci e Shigueo Filho. Já quase avô, cursou e diplomou-se em Ciências Econômicas, pela
Faculdade de Marília, no ano de 1972.
Tão logo Shigueo instalou seu escritório, mercê dos seus dotes profissionais e do relacionamento fácil que sabia
manter com todos os clientes e amigos, formou um círculo de atividades intenso e produtivo, em muitos sentidos.
Sua assistência técnica era disputada pelos comerciantes e indústrias. Além disso, sabia selecionar e treinar
seus auxiliares. Assim, sob sua orientação e direção, efetuou um mestrado dirigido a muitos jovens, de maneira
que nos trinta anos em que esteve estabelecido, formou uma plêiade de profissionais que muito honraram a
profissão, ou que, dedicando-se mais tarde a outras atividades, alcançaram destaques e projetos em suas
carreiras. Pedindo desculpas a algum de que não nos lembramos, relacionamos os seguintes nomes dos que por ali
passaram: Frederico Acorsi Neto, Maurício Marques, Genésio Pinheiro Galvão, Clemis Cassis, Adauto Caetano,
Augusto Fernando dos Reis, Luiz Otávio Lavanholi, Humberto Bazzo, Willian Bazzo, Helena de Freitas Oliveira,
Queixinho, Sebastião Tiagas (o Tiaguinha), Missae Yuaso, Moacir Martins (Xororó), Guerra, Valdemar Pereira e
outros, todas as pessoas de destaque na sociedade local e em seus locais de trabalho.
Ressalte-se que seu escritório sempre foi dos mais importantes da cidade, havendo uma época que aproximadamente
70% das escritas contábeis e fiscais da cidade eram executadas em seu estabelecimento. Nos anos finais em que
funcionou, localizava-se na Avenida Paraguaçu (onde hoje estão construídas as instalações da Loja Kombat) em um
prédio entre a antiga Farmácia Noronha e a Padaria Minerva. Encerrou suas atividades em 1976, com a
aposentadoria do seu titular, o nosso focalizado Shigueo.
Se, pelo que vimos, nossa cidade muito deve a Shigueo, por suas atividades profissionais, na verdade deve-lhe
ainda mais pelos resultados obtidos através de seu trabalho em proveito da causa que abraçou, desde sua chegada
a ela: a integração da colônia japonesa ao povo de Paraguaçu Paulista.
Muito embora mantivesse muito boas relações com todos na cidade, em função do seu gênio alegre, expansivo e
colaborador com tudo e todos, continuava sentindo o clima de alguma animosidade ainda existente entre os
moradores de sua raça de origem e os de origem ocidental que aqui habitavam, principalmente em consequência da
recém-terminada Segunda Guerra Mundial. Tal fato foi ainda paulatinamente se agravando por causa de vários
motivos econômicos - entre os quais os constantes prejuízos financeiros, experimentados pelos agricultores que
cultivavam algodão, no final da década de 40, em sua maioria, nipônicos, que gerou sensível ocorrência de
insolvências e o desastre financeiro da Cooperativa Agrícola de Paraguaçu, de origem na colônia.
Tais fatos constituíam mais entraves a dificultar a perfeita integração entre orientais nipônicos e ocidentais.
Ressaltem-se ainda as dificuldades causadas pelas diferenças entre as duas culturas, que, para os japoneses,
sempre constituiu a base de sua filosofia de vida. O lapso de tempo decorrido após a chegada da maioria dos
japoneses que aqui aportaram, a maior parte deles imigrantes vindo para aqui diretamente, nas décadas de vinte e
trinta, não foi suficiente para assimilarem os costumes nacionais. Apenas pouco mais de vinte anos foram poucos
para mudar conceitos e costumes milenares de um povo pouco expansivo, acostumado, mesmo aqui, a concentrar-se em
colônias familiares, costume aqui ainda mais agravado pelos fatores bélicos oriundos do exterior. Assim, a plena
convivência forçosamente teria que ser demorada; para que se realizasse, somente após mais de 50 anos de
dificuldades foi alcançada, em face dos mais ingentes esforços de ambas as partes. Porém, com mais dificuldade
no meio da colônia nipônica, em face da grande intransigência de seus chefes patriarcais em abdicar de alguns
dos seus princípios e conceitos. Foi aí que se destacou o grande trabalho de Shigueo, servindo como
intermediário no aprimoramento e apaziguamento das relações entre os membros da colônia e os demais moradores da
região, procurando solucionar pendências, orientando os membros de seu grupo com relação às divergências dos
costumes, procurando incutir neles as mais diversas facetas da cultura ocidental que forçosamente teriam que ser
também por eles incorporadas com o decorrer do tempo.
Portando-se como um porta voz da colônia, ele foi, por muitos anos, o seu representante nas atividades alheias
ao círculo da mesma, assim, quase todas as pretensões eram encaminhadas por seu intermédio aos poderes
estabelecidos, principalmente as relativas aos pedidos de atendimento de serviços aos poderes municipais. Até
mesmo pedidos de crédito em estabelecimentos bancários eram por ele transmitidos. Quando aos membros da colônia
eram apresentadas proposições ou notificações, as soluções não eram dadas na hora: a resposta era: “Vamos falar
com o Shigueo”.
Apesar do trabalho dificílimo, Shigueo nunca esmoreceu; nem sempre conseguiu ver proveitoso seu trabalho,
principalmente nos aspectos familiares da cultura japonesa, talvez aquele que tenha mais demorado em se
“americanizar”: no casamento de seus integrantes. Foi diversas vezes solicitado a pleitear junto a progenitores
autorização para a realização de casamento inter-racial ou, mais propriamente, para um oriental casar-se com
brasileira. Muito pouco resultado conseguiu. A intransigência do chefe da família em assentir tinha fundamentos
seculares em suas tradições. Contava que, certa vez, ao fazer o pedido a um proeminente membro da colônia, foi
pelo mesmo desacatado, ofendido e até expulso da casa.
Trabalhando muito, aos poucos foi alcançando resultados e frutos. Nunca teve intenções políticas. O início da
assimilação da colônia à vida local foi, contudo, demarcado por um fator político: em 1955, pela primeira vez na
história, dois membros da colônia foram eleitos vereadores. Camiko Kido e Shigueo Yonashiro foram escolhidos
vereadores à Câmara Municipal, para o quadriênio 1956/1959. Face à sua atuação correta e proveitosa, não somente
no sentido dos interesses da colônia, foi reeleito em mais dois períodos: em 1960/1963 e 1969/1972. Note-se que
sua primeira eleição denunciou o grande início de perfeita integração da colônia à comunidade. Nos anos de 1956
a 1972, também outros representantes da colônia foram eleitos vereadores, culminando a ascendência política com
a eleição, em 1968, de Mitsuo Marubayashi para Prefeito da cidade, de quem Shigueo foi, por muitos anos, fiel
escudeiro.
Sobressaiu-se também Shigueo, por sua atividade rotariana, onde militou por muitos anos. Como cidadão
desprendido e diligente, sempre demonstrou estar perfeitamente entrosado ao lema dessa entidade: o de servir,
não só a si, mas ser útil e prestante. Foi presença ativa em grandes realizações do Rotary Clube de nossa
cidade.
Acima de tudo, deu o grande exemplo. Criou seus filhos, tornando-os pessoas dedicadas ao trabalho, úteis,
idôneas, bem aceitas e, acima de tudo, livres de preconceito de raça.
De tão proveitosa existência só poderiam ser muitos os frutos por ele colhidos. Os seus dotes imensos de
capacidade de trabalho, idoneidade e honestidade, aliados a uma personalidade alegre e entusiasmada, levaram
Shigueo a receber, de todos os demais, sinceros pleitos de amizade e reconhecimento. Ficou nos corações e na
lembrança, não somente dos membros da colônia que sempre soube tão bem representar e para quem tanto lutou, no
sentido de que seus integrantes fossem recebidos e tratados como irmãos que somos.
Observações ao texto:
- Necessário, a bem da verdade histórica, observar que os pioneiros políticos da colônia foram Camico
Kido e Hissagy Marubayashi, eleitos vereadores no período 1952 a 1955.
- Com a devida vênia e com objetivo de enriquecer o relato, acrescenta-se os nomes de mais três
funcionários que trabalharam no “Escritório Paulista de Comércio”: Manabu Saito, Luiz Issao Yonashiro,
Sadako Shiraishi.