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Memória da Política

Texto de Takahiko Hashimoto



A integração do imigrante em um novo país se faz geralmente em três etapas. Inicialmente, predomina o espírito da sobrevivência individual, da família, parentes e, de forma marginal, a preocupação com amigos próximos e com o grupo. Acomodado à nova situação, tem início a fase do crescimento e afirmação econômica. Assim como a busca por uma maior integração com a sociedade onde se insere. Finalmente, atinge o estágio onde deixa de ser apenas o espectador e indivíduo sobre quem incide as normas sociais e legais - cabendo a ele cumpri-las, passando a assumir corresponsabilidade nas decisões comunitárias. Faz isso participando de associações comerciais, diretorias de clubes sociais e de serviço, integrando instituições filantrópicas, diretorias de cooperativas e, em um estágio superior, tomando parte da administração pública seja no legislativo ou no executivo.

Pode-se afirmar que esta participação política, ou de sua descendência, é o sinal do amadurecimento da integração da comunidade imigrante ao seu novo “locus” social.

No Brasil, isto aconteceu com a colônia japonesa apenas em 1947, decorridos 39 anos da chegada dos primeiros imigrantes. Provavelmente teria acontecido antes, não fora as restrições impostas pelo Estado Novo de Getúlio Vargas impossibilitando, desde 1937 até aquele ano, as eleições estaduais e municipais.

Segundo Taniguti (2021), ainda que na literatura existam várias referências de que Yukishigue Tamura seria o primeiro descendente a ser eleito para um cargo político - no caso para a cidade de São Paulo, na verdade, no pleito de 1947, outros 37 vereadores também foram eleitos no interior do estado de São Paulo.

O autor esclarece:
“É bem possível que a notoriedade alcançada por Yukishigue Tamura contribuiu para que o pioneirismo lhe fosse atribuído sem grande dissenso. Afinal, ele passou a representar uma espécie de trajetória exemplar para uma segunda geração de imigrantes, que aspirava a ascensão social e a aceitação de suas diferenças. Após ocupar sucessivos cargos políticos, Tamura conquistou amplo reconhecimento social e era considerado uma figura pública notável. Um ponto crítico a ser destacado é que na escassa literatura dedicada ao exame da ascensão política de indivíduos de origem japonesa no Brasil, autores constantemente reproduzem uma narrativa de pioneirismo na política que Tamura, supostamente, teria protagonizado (SAKURAI, 1993; SALVADORI FILHO, 2014). Desse modo, a centralidade conferida ao pleito ocorrido na capital paulista contribuiu para a omissão de casos situados em outras localidades.”

Em 1947, na região da Alta Sorocabana, a cidade mais próxima de Paraguaçu Paulista a ter a primazia de primeira eleição de um descendente foi Martinópolis, que elegeu Sussumi Imamura para a sua Câmara de Vereadores. (José Carlos Daltozo)

Em Paraguaçu Paulista, a participação política da colônia é muito rica e recheada de fatos importantes. Ao se descrever esta história, que teve início em 1952, dois adjetivos serão recorrentes: coesão e competência.

Coesão porque, como aconteceu em todas as localidades com colônias representativas, o fator fundamental para as eleições foram a aglutinação dos votos dos eventuais naturalizados e da esmagadora maioria dos descendentes.

Por um período que abrange vários pleitos, ao se aproximar a fase eleitoral, a liderança da comunidade nikkei da cidade se reunia na ACEPP para sugerir o representante para a disputa de vaga para a Câmara de Vereadores de Paraguaçu. Evidentemente o consenso era representado por um perfil exemplar, espírito de liderança, capacidade de articulação e, portanto, com plenas condições de ser o porta voz da colônia no Legislativo.

Provável exceção neste esquema foram as candidaturas vitoriosas de Hissagy Marubayashi e de Camico Kido que, em 1952, foram os pioneiros na política paraguaçuense. A liderança que ambos exerciam junto à comunidade oriental e o precoce reconhecimento da população em geral, já os credenciavam naturalmente à pretensão aos cargos pretendidos.

Com o passar dos anos, à medida que a influência da primeira geração de imigrantes foi diminuindo e a miscigenação foi aumentando, esse espírito de corpo passou a ter menor importância chegando, na eleição de outubro de 2020, a acontecer uma ruptura, com representantes da colônia em campos opostos no embate político para o executivo - um para prefeito e o outro para vice. Mais do que lamentar, há que se reconhecer que o fato é auspicioso por significar a prova definitiva da total integração dos “japoneses” dentro da sociedade paraguaçuense.

O adjetivo competência é recorrente nesta narrativa. Isto porque para o legislativo, além da competência, o apoio da comunidade significava quase um passaporte para o cargo. Já para a disputa ao executivo, a importância desse apoio tinha e tem pouco impacto. Não credencia sequer para a pretensão de se colocar uma candidatura. E, assim, o mérito total dos casos de sucesso deve ser creditado exclusivamente à competência do candidato.

Isso pode ser explicado pela parcela proporcional da colônia em relação à população paraguaçuense. Como parte das comemorações dos 50 anos do início da imigração japonesa, foi criada no Brasil uma Comissão do Recenseamento da Colônia Japonesa. A pesquisa permitiu saber que, em 1958, Paraguaçu Paulista, então uma pequena cidade com 24.543 habitantes (SEADE – 1950), tinha uma comunidade nikkei composta de 1.427 pessoas, sendo 415 imigrantes e 1.012 descendentes. A maioria – 873, residente na zona rural e os demais 554 na zona urbana. Do total, 742 eram do sexo masculino e 684 do sexo feminino. (Comissão de Recenseamento da Colônia Japonesa, 1964, p.12). Portanto, na época, apenas 6% aproximadamente dos moradores eram de origem nipônica. Insuficiente para levar um candidato à cadeira da prefeitura do município. Hoje (2022), com população de 41.120 mil habitantes, a proporção é muito menor, em torno de 1%.

O que credenciou Hissagy Marubayashi como candidato a prefeito da cidade, em 1955, foi a sua competência administrativa na iniciativa particular, fato comprovado pelo sucesso na atividade agrícola e pelo êxito nos empreendimentos comerciais, enriquecida pela experiência do mandato parlamentar entre 1952 e 1955. A passagem pela Câmara de Vereadores o havia ajudado a converter o capital político fundamentalmente baseado na colônia, em eleitorado eclético, principalmente entre as classes menos favorecidas da população. A auxiliar na construção de sua imagem positiva, era destacada a reconhecida preocupação com o coletivo, materializada pela participação em vários projetos de interesse municipal.

No entanto, prevaleceu uma campanha contrária que explorou sentimentos antinipônicos que haviam atingido o nível máximo durante a 2ª Guerra e que foram reavivados em 1955.

Aqui é necessário abrir um parêntese para rapidamente contextualizar esses sentimentos.

Lembrar que mesmo nas primeiras décadas desde o início da imigração existiam vozes discordantes no Brasil, preocupados com a miscigenação: ecoavam que à mistura de brancos e negros/indígenas, haveria ainda a consequência negativa da adição dos “amarelos”. Em várias ocasiões, isso foi traduzido nos parlamentos, em legislações que mostravam caráter elitista e discriminatório.

A diplomata Cecília Kiku Ishitani (2008) ensina em seu ensaio:

“Entre as principais objeções destacavam-se a questão da eugenia, a ameaça à segurança pátria (com o argumento do imperialismo e expansionismo japonês) e o problema da assimilação. Uma obra de Oliveira Vianna (“Raça e Assimilação”), lançada à época, radicalizava afirmando, em célebre frase, que “o japonês é como enxofre: insolúvel”, e postulava sua total incapacidade de se deixar absorver. Essa corrente contrária à imigração acabou por vingar na Constituinte de 1934, quando se instituiu a cláusula de redução de novos imigrantes por nacionalidade para 2% do total ingressado nos últimos 50 anos. Tratava-se de medida claramente discriminatória, uma vez que afetava apenas a imigração japonesa.”

No Estado Novo de Getúlio Vargas a situação se agravou, principalmente após a entrada do Brasil na 2ª Guerra Mundial.

Foi proibido o funcionamento de escolas japonesas, como também das outras duas nações participantes do Eixo e, portanto, inimigas do Brasil: Itália e Alemanha. Não era permitido o uso da língua original em público e nem reuniões com mais de duas ou três pessoas. Havia o impedimento de editar, fazer circular ou ler livros, jornais ou revistas na língua japonesa. Rádios foram confiscados para se evitar que fossem sintonizadas as emissoras do Japão. Empresas nipo-brasileiras foram desapropriadas. Aos olhos do governo central, os imigrantes dos países do Eixo passaram a ser tratados como inimigos, com a determinação, inclusive, de remanejamento de pessoas dos locais de maior concentração ou estratégicos, como em bairros da capital paulista e das proximidades do litoral, como Santos.

Lamentavelmente, as maiores consequências na rotina do cidadão comum recaíram sobre os japoneses, em comparação principalmente aos italianos, por ser uma imigração mais tardia e menos incorporada ao Estado brasileiro e também pelo fenótipo bem diferente em relação à população “brasileira”, o que os tornavam facilmente identificáveis.

Evidentemente esse clima hostil contaminou parte da população, ainda que nas pequenas cidades, como em Paraguaçu Paulista, os efeitos fossem atenuados, principalmente pelo respeito que a colônia já havia granjeado. Mas, mesmo assim, aconteceram situações condenáveis, como os relatados pelo professor Osório Lemaire de Morais (2005) ao descrever sua experiência como professor na Colônia Bunka.

Retomando o tema das eleições municipais de 1955, o caráter xenofóbico foi escancaradamente explicitado quando no dia da eleição, as ruas amanheceram com milhares de panfletos apócrifos contendo os dizeres:

“Você um brasileiro, vai votar num japonês?”


Vale lembrar que, então, apenas uma década havia transcorrido desde o final do conflito mundial e, portanto, o tema explorado estava fresco na memória dos eleitores mais velhos. Interessante observar que a discriminação racial ainda permeia, com frequência, o meio político.

Na história mais recente, outro político de projeção nacional, em determinado momento de sua carreira teve questionamentos acerca da legitimidade no cargo por ser “japonês”.


Foto: Dr.Cássio Tanigushi. Internet


Trata-se de Cássio Tanigushi, nascido em Paraguaçu Paulista, no ano de 1941. Primeiro e até agora, único nipo-brasileiro a ocupar o cargo de prefeito de uma cidade que é capital de Estado. Entre os principais cargos políticos, Cássio foi deputado federal de 2007 a 2011, Secretário de Estado no Paraná e no Distrito Federal e Prefeito de Curitiba em dois mandatos, de 1997 a 2004.

Apesar de novo insucesso de Hissagy Marubayashi na segunda tentativa na eleição de 1959 e na terceira, em 1963, sua iniciativa vanguardista pavimentou o caminho para que, em 1969, seu irmão mais novo Dr. Mitsuo Marubayashi, se tornasse o primeiro prefeito oriundo da colônia japonesa.

Em 1983, assumia a prefeitura o Dr. Edivaldo Hassegawa cumprindo um mandato que, excepcionalmente, se prolongou até a 1988. Foi o segundo membro da colônia a representar o executivo municipal.

A partir de 2021 assumiu a prefeitura Antônio Takashi Sasada.

Como visto anteriormente, representando nos áureos tempos apenas 6% da população, proporção que foi diminuindo ao longo dos anos até atingir nos tempos atuais pouco mais de 1%, a colônia conseguiu eleger seus representantes pela competência e qualificação dos candidatos ao Executivo. É verdade que cada um deles também carregava e usufruía do reconhecimento angariado pelos “japoneses”, que com o passar dos anos construíram uma imagem de pessoas honestas, trabalhadoras, confiáveis, inteligentes e comprometidas.

Condição essa reforçada por uma nova ordem social, em que se observavam descendentes perfeitamente integrados à vida da cidade e, em diferentes fases da história, ocupando presidência ou diretoria de entidades como Associação Comercial, Cooperativas Agrícolas, Lions Clube, Rotary Clube, Loja Maçônica, Colégio Agrícola, Faculdade de Agronomia, Posto de Saúde, Casa da Agricultura, Hospital de Caridade, Asilo São Vicente de Paula, Lar do Menor, Prefeitura do Município, Câmara Municipal. Outros membros, sendo lideres ou partícipes importantes em setores de esportes, da agricultura, do comércio, prestação de serviços ou se destacando em profissões liberais.

Portanto, pode-se considerar que com a eleição de Mitsuo Marubayashi, a anteriormente citada maturidade na relação com a comunidade atingia sua plenitude, ainda que com alguns problemas pontuais, como a questão racial explorada nas eleições. Deve ser lembrado que na ocasião, 1968, apesar de persistir, era bem menor o ranço xenofóbico que caracterizou as frustradas tentativas de Hissagy Marubayashi quase duas décadas antes.

Além dos citados prefeitos, outros membros da colônia exerceram cargos legislativos. A maioria deles em uma época em que a vereança era exercida de maneira voluntária, pois não havia remuneração, sendo uma atividade desenvolvida concomitantemente com o labor diário. A Lei complementar nº 25, de 2 de julho de 1975, estabeleceu os critérios e os limites para a fixação da remuneração dos vereadores no Brasil, mas só foi implementada em 1977. Antes disso, apenas os vereadores das capitais de estado recebiam remuneração.


A coesão no apoio aos candidatos às Câmaras de Deputados

Também era muito coesa a participação dos nikkeis quando das eleições para as Câmaras, no âmbito federal e estadual. Os candidatos a deputado buscavam os votos nos núcleos de concentração desses eleitores, apostando na fidelidade racial, auxiliados pelas lideranças locais. A estas cabiam a apresentação do candidato, a organização de reuniões com a presença do mesmo e até mesmo o acompanhamento em visitas aos políticos locais e nas casas residenciais.

Em Paraguaçu duas dessas lideranças se destacavam nesse trabalho político: Hissagy Marubayashi, que desde as primeiras eleições apoiou e representou Yukishigue Tamura nas campanhas a deputado estadual; e, a de Denshiro Saito fazendo o mesmo em relação ao deputado federal João Sussumu Hirata.

Digno de menção, a candidatura em 1954 do então vereador Hissagy Marubayashi à Assembleia Legislativa do estado de São Paulo, pelo Partido Democrata Cristão, PDC, sem lograr êxito.


Um fato interessante

Um fato interessante emergiu na pesquisa histórica e tem relação com o assunto deste capítulo, pois se trata da área da diplomacia. A atuação diplomática é o exercício da política no seu patamar mais elevado. Em 2008, quando se completava 100 anos da imigração japonesa, a FUNAG - Fundação Alexandre de Gusmão, uma entidade vinculada ao Ministério das Relações Exteriores patrocinou conjuntamente com o Instituto Rio Branco um concurso franqueado aos membros da carreira diplomática, até o nível de conselheiro. Entre os inscritos, foram escolhidos 8 ensaios reunidos no livro denominado “Ensaios sobre a Herança Cultural Japonesa Incorporada à Sociedade Brasileira.” Percebe-se, analisando os sobrenomes, que seis dentre os oito autores selecionados, têm ascendência japonesa.

Na apresentação da obra, o Embaixador Fernando Guimarães Reis relata que à época, 22nipo-descendentes integravam o Serviço Exterior Brasileiro.

No livro, a diplomata Candice Sakamoto Souza Vianna conta em seu ensaio - “Um Japão no Brasil: Heranças de 100 Anos de História”, que sua avó Satiko chegou ao Brasil em 24 de junho de 1926, com apenas dois anos de idade. Veio acompanhada de uma irmã, três irmãos e seus pais. A família instalou-se, primeiramente, em Paraguaçu Paulista, onde trabalhou no cultivo de algodão. O pai de Satiko era Toyo Hirano.

Outro ensaísta, o diplomata Marcos Maurício Toba, comenta sobre seus antepassados instalados no Núcleo Hirano, nas proximidades de Bauru. Os demais - quatro autores, não dão pistas da primeira fase no Brasil, dos familiares da primeira geração - isseis.

Um nome, no entanto chamou a atenção: o da diplomata Cecília Kiku Ishitani. Pelo sobrenome e por relatar, em seu “Ensaio sobre a Herança Cultural Japonesa Incorporada à Sociedade Brasileira”, ser uma das três irmãs diplomatas na família. Teria ela algum parentesco com a embaixadora Fátima Keiko Ishitani, que foi a segunda pessoa de ascendência japonesa a ingressar no Itamaraty, precedida pelo Embaixador Edmundo Sussumu Fujita e a primeira mulher nipo-brasileira a ter este privilégio? Seria ela a mulher que, em 2020, ao ser promovida a embaixadora tornou-se a única representante nikkei a ocupar o cargo de maior hierarquia na carreira diplomática, já que o embaixador Fujita havia falecido em 2016? Embaixadora cuja história é bem conhecida dentro da comunidade nikkei brasileira pelo pioneirismo e orgulha a colônia de Paraguaçu pelas raízes maternas nela assentadas?

Uma rápida pesquisa confirmou a irmandade das diplomatas Fátima, Cecília e Claudia, filhas de Keiko e Kiyoshi Ishitani. A senhora Keiko que, quando solteira, apresentava o sobrenome Tomita, filha que é de Issamu e Kimiko Tomita. A família Tomita morou em Paraguaçu Paulista até o final dos anos 50 ou início dos 60, quando se mudou para Curitiba.

Portanto, dos seis autores diplomatas com ascendência japonesa que participaram com seus ensaios no citado livro, pelo menos, dois deles têm na história de suas famílias, vínculos com a história da colônia japonesa de Paraguaçu Paulista. E, dos 22 nipo-descendentes relatados pelo Embaixador Fernando Guimarães Reis como integrantes do Serviço Exterior Brasileiro (em 2008), pelo menos quatro deles têm a mesma narrativa genealógica ligando-os à cidade.

Decorridos 100 anos da chegada dos primeiros imigrantes na colônia Bunka, Ribeirão Grande, Água da Lebre, Cristal e outros bairros, a constatação mostra o elevado grau de integração à sociedade brasileira e junto com outros exemplos, o legado dos pioneiros paraguaçuenses em tantas áreas de atividades no cenário nacional.