Jiyu Gakuen, Shōgakusha e Nihongakkō
Texto de Humihiro Nishizawa e Mirian Marubayashi Hidalgo, com contribuições de Milton Takeshi Sato e Celina
Harumi Nishizawa
Em 1936, Kiujiro Marubayashi, do bairro Ribeirão Grande; Tokow Yamada, da Fazenda Bunka; Issuke Sasaki, Kenda
Nagamatsu, Yoshio Matsukura, Suehiko Hashimoto e outros patriarcas que atuavam na cidade participaram do grupo
dirigente do movimento pela construção e instalação, em Paraguaçu Paulista, do Jiyū Gakuen (Internato da Liberdade),
destinado a abrigar jovens da zona rural em idade escolar. Nas reuniões, os grupos Marubayashi e Yamada eram
representados pelo sr. Shigueru Watanabe. Em 29 de maio de 1938 teve início as atividades em um insólito sobrado de
madeira localizado na rua Barão do Rio Branco, em um descampado com pouquíssimas casas ao redor.

PRIMEIRO PRÉDIO DO INTERNATO E DA ESCOLA DE JAPONÊS
Acervo Família Hashimoto.
Data: 29 de maio de 1938

DESTAQUE DA FOTOGRAFIA ANTERIOR
Acervo Família Hashimoto.
Data: 29 de maio de 1938
Identificação feita por Nobuco Hashimoto Shiraishi. Transcorridos 87 anos e também pela falta de nitidez da foto,
pode haver um ou outro equívoco.
São reconhecidos, sempre da esquerda para a direita:
Kenda Nagamatsu - quarto da última fileira, terno escuro,
Matataro Hashimoto - no centro da última fileira, terno escuro, gravata de listas diagonais, se destaca também pela
altura
,,,,Maruichi - sétimo da última fila
Hissagy Marubayashi - oitava da última fila, de terno escuro.
Shigueta Hashimoto - nono da última fila, era morador no Ribeirão Grande. Não tinha nenhum parentesco com os irmãos
Hashimoto, também citados nesta relação
Shigueo Ikemoto - décimo primeiro da última fila. Filho do patriarca Ikemoto, postado na segunda fila.
......Morikawa - segundo da segunda fila, de terno escuro. Foi professor da escola da Água da Lebre - Colônia Taiyo.
Depois veio para a cidade e trabalhava na alfaitaria do sr. Tazaki.
........Ikemoto - quinto da segunda fila, de terno escuro, também se destaca pela altura
Irmã da Dona Margarida - sétima da segunda fila, esposa do sr. Maruichi
Dona Margarida - oitava da segunda fila, com uma criança no colo. Esposa do sensei Shigueru Watanabe. Certamente
assim chamada pelos brasileiros, para facilitar a comunicação. A menina provavelmente é a Saguiri Watanabe, filha
mais velha
.....Kobo - nono da segunda fila, de terno escuro e gravata borboleta.
Suehiko Hashimoto - décimo da segunda fila, terno claro, antecedendo Denshiro Saito.
Shigueru Watanabe - décimo segundo da segunda fila, ao nível do solo.Era professor da escola
Das crianças sentadas à frente, a décima e última criança é provavelmente Massaro Nagamatsu, tendo ao lado,
sorridente, Michiaki Sasaki
Anos depois foi demolido e a madeira reaproveitada para a construção de outro sobrado, agora já no terreno do final
da rua Barão do Rio Branco. Apesar do nome oficial, para os integrantes da colônia e alunos, sempre foi referido
como Shōgakusha (escola de ensino fundamental). O Internato é considerado a semente que deu origem à ACEPP –
Associação Cultural e Esportiva Paraguaçu Paulista.
Ao abrigar alunos nikkeis das cidades do entorno: Lutécia, Maracai, Quatá, e mais distantes como: Martinópolis,
Pirapozinho, Presidente Prudente, Presidente Bernardes, Presidente Epitácio, Bastos, Alvorada do Sul e outras do
oeste de São Paulo e do norte do Paraná, sua importância extrapolou os limites do município. A maioria dos internos
era do curso primário, já que as escolas rurais iam predominantemente até o 3º ano. Outros cursavam o ginasial,
principalmente nas décadas de 1940 e 50, época em que o Ginásio Paraguaçu foi o ponto de referência da região ao ser
fundado em 1943 e as primeiras aulas iniciarem em 16 de março de 1944. Posteriormente, em 1949, foi criado o Colégio
Estadual e Escola Normal (CENE) Diva Figueiredo da Silveira.
A sede consistia em um conjunto de edificações de madeira, quadra de basquete de chão batido e campo de beisebol,
onde hoje se encontram os campos de gateball. Nele os internos jogavam futebol “pelada”, praticavam atletismo e
aconteciam os undokais. Além desse campo havia outro terreno que servia para os jogos de futebol dos “peladeiros” da
cidade, que foi posteriormente loteado para arrecadar fundos que contribuíram para a construção da atual sede social
da ACEPP.

UNDOKAI.
Acervo Milton Takeshi Sato
As edificações de madeira consistiam em uma casa térrea, que servia de moradia para a família do professor e
abrigava o internato feminino e masculino daqueles que cursavam o primário. O sobrado era conjugado com a cozinha
que ficava na casa. No térreo, havia o refeitório que também era utilizado como sala de estudos da língua japonesa e
para se fazer as “lições de casa”. No andar superior se localizavam os dormitórios daqueles que cursavam o ginasial,
com o privilégio de se ter mesa de estudos. Todos estavam interligados uns aos outros pelos corredores. Em outra
casa ficava o ofuro, casa de banho japonês coletivo, e havia outras duas casinhas destinadas a se fazer as
necessidades, porque não havia serviço de esgotos. Como em todas as casas da cidade à época, a água era retirada do
poço até a chegada do serviço de abastecimento, hoje Sabesp.
Os próprios internos faziam a faxina, limpando os quartos e áreas comuns. As meninas ainda ajudavam lavando as
louças. Esporadicamente, algum interno e não interno ajudavam na cozinha e servindo as refeições em troca de
aprender o japonês ou continuar os estudos. O Shōgakusha foi uma escola extracurricular, de vida, para os que por lá
passaram, contribuindo muito para a aquisição de disciplina, saber viver coletivamente, cuidar de si próprio e
outros atributos.

INTERNAS NA ÉPOCA DO PROF. MIYAJIMA - Início dos Anos 50
Acervo Adriana Hitomi (Tagima) Kato

INTERNOS E FAMÍLIA DO PROF. MIYAJIMA
Acervo Oscar Yoshinori Toyofuku – ele
sentado ao lado do professor

Idem 1955 - Curiosidade: Os alunos do CENE usavam gravata e do Ginásio Paraguaçu,
túnica cor caqui.
Acervo Oscar Yoshinori Toyofuku


INTERNOS DO CURSO PRIMÁRIO (1956) Traje para desfile de 7 de setembro.
Acervo
Humihiro Nishizawa

INTERNOS NA VARANDA (1956).
Acervo Humihiro Nishizawa

CHURRASCO (1956).
Acervo Humihiro Nishizawa

Internos do curso Ginasial (1.956) trajados para desfile de 7 de
setembro.
Acervo
Humihiro Nishizawa

“PELADEIROS” (1956).
Acervo Humihiro Nishizawa

FAMILIA DO PROF. MIYAJIMA.
Acervo Humihiro Nishizawa
O diretor do pensionato era escolhido pela comunidade japonesa da cidade, sendo requisito essencial ensinar a língua
japonesa. O primeiro diretor foi Shigueru Watanabe (ano-ano). Em seguida, os senhores Taro Saito (ano-ano),
Yassuhiko Miyajima (ano-1956), Masaichi Nishiyama (1957-1962) e Shusan Kuze (1963-1968). De acordo com alguns
relatos, o Saito sensei era também bom técnico de beisebol, bem como o Miyajima sensei, de beisebol e judô. Até a
chegada do Nishiyama sensei, em 1957, as aulas de japonês eram exclusivas para internos, sendo que durante a 2ª
Guerra Mundial houve a proibição e com isso existe uma lacuna. Haja vista que o Nishiyama sensei mantinha, na
cidade, a escola de japonês Wakaba Kurabu, quando se tornou diretor, levou seus alunos externos, que junto com os
internos, passaram todos a ter as aulas de japonês. Em 1963 iniciou a era do Kuze sensei, que foi o último diretor
do ciclo do Shōgakusha, sendo que ele manteve as aulas de japonês para alunos externos.
Quanto às regras comportamentais, os senseis Saito e Miyajima cobravam uma rígida disciplina, muitas vezes
comparada à dos quarteis; sobre Watanabe, nenhum registro a respeito; e, Nishiyama e Kuze eram mais
tranquilos. Sabe-se que houve até expulsão, mas não por indisciplina e sim por má conduta. Um dos paraguaçuenses que
mais tempo ali permaneceu foi o Humihiro Nishizawa, durante 7 anos no total, sendo o último como pensionista
enquanto servia no Tiro de Guerra.
FOTO HISTÓRICA - REENCONTRO VIRTUAL APÓS 66 ANOS

Alunos do curso primário de 1956.
Acervo de Humihiro Nishizawa - com ilustração
de
alguns nomes feito por Oscar Y. Toyofuku
“Esta última foto dos alunos do curso primário tem uma história de 66 anos, sabia de alguns nomes, mas queria saber
especialmente de uma pessoa, cujo pai era proprietário de uma pensão em Presidente Prudente, conhecido como “Ebis
Hoteru”. Minha curiosidade era saber por que estudar em Paraguaçu. O nome era Oscar, mas não sabia do seu sobrenome
“Toyofuku”, exatamente no dia 12 de fevereiro deste ano 2022, consultei o meu primo Ko Nishizawa, interno como eu,
se sabia o sobrenome dele, a resposta veio de imediato, também nomes de outros internos. Procurei nas redes sociais
e encontrei no Facebook um nome semelhante, mandei um Messenger, seria ele a pessoa que estudou em Paraguaçu? Para
minha satisfação, alegria e espanto veio a resposta no dia seguinte, perguntando como eu descobri, hoje morador em
Camboriú. Conversamos muito e a minha curiosidade foi desfeita. A indicação para o internato foi do sr. Kimura,
prof. de judô e dono da sapataria com mesmo nome, muito amigo do seu pai. Assim, meus pais puderam trabalhar dia a
dia com mais tranquilidade na pensão. Ele enviou diversas fotos de 3 anos que foi interno, já postadas. Aqui vai
alguns trechos que ele postou no Facebook, dando explicações sobre o cotidiano como interno.
“Fui surpreendido no Messenger do Facebook, ao ser perguntado se tinha estudado em Paraguaçu Paulista. Respondi que
sim, no internato do Prof. Miyajima, entre os anos de 1954 e 1956. Fiquei curioso e perguntei, como descobriu. Ele,
Humihiro Nishizawa, disse estar escrevendo sobre Shogakusha e vendo as fotos, disse que sabia meu primeiro nome e
apelido (popular Pinduca, na época não tinha esse tal de bullyng) e seu primo Ko Nishizawa sabia o meu sobrenome.
Louvável, a memória dos dois (1956), pois, as vezes, não lembro o que jantei ontem, hahaha! E ele pesquisou e me
encontrou no Facebook. Não imagina o qual a minha felicidade em resgatar a vivência no internato, depois de 66 anos.
Obrigado, Humihiro e Ko Nishizawa. E vamo que vamo ao encontro de outros colegas daquela época, que será um
presente, de estarmos vivendo esse momento. Viva a Vida”
“Foi muito gratificante viver intensamente com colegas diuturnamente... Levantar-se cedo, arrumar sua cama, executar
tarefas organizadas pelos superiores. Ir para escola, grupo escolar e estudar japonês, praticar esportes, mesmo
porque, o pessoal estava sempre disponível. Pena que naquela época (1954 a 1956 minha fase de internato) não tinha
internet e perdi todo contato e nem lembrava mais, os nomes dos colegas. Aí apareceu Humihiro Nishizawa para
resgatar, a memória daquele tempo.”
Além dos estudos da língua japonesa e práticas esportivas no contraturno escolar, os internos e alunos do nihongakkō
realizavam inúmeras atividades como participação nos concursos de oratória (ohanashi taikai) interno e regional e as
apresentações anuais no festival escolar de arte (gakugeikai) eram sempre aguardados pelos familiares.

APRESENTAÇÃO DE CANTO ADEUS SARITA (1958). Gentil Okumura e Shigueyuki
Yonashiro.
Acervo Gentil Okumura

PEÇA CHAPEUZINHO VERMELHO (1964). Shizuka Suzuki era Chapeuzinho Vermelho, Takeshi
Sato o Lobo Mau e Edna Setsuko Ijima era a vovozinha.
Acervo Milton Takeshi Sato

CANTO CORAL (1966).
Acervo Milton Takeshi Sato

PEÇA GUILHERME TELL (1965). Kuze sensei, Tomosi Morooka, Tomiyoshi Ida, Eisso
Katekawa, Hideo Ijima, Yoshiaki Suzuki (ao fundo), Massami Yonashiro e Takeshi Sato.
Acervo Milton
Takeshi
Sato

APRESENTAÇÃO DE BALÉ (1968). Fumi Saito, Akemi Nakahara e Shigueyo Nagamatsu.
Acervo Fumi Saito
No período 1963-1965, os internos moradores da Fazenda Bunka eram: Fumiko, Humihiro (até1.964) e Hossamu Nishizawa;
Milton Takeshi e Aldo Hiroshi Sato; Toshio e Takemi Yokota; e, Djo e Djun Suzuki. Da Fazenda Barreiro, Dilza Shizuka
Suzuki. Da cidade de Borá, Tomosi Morooka; de Rancharia, Yoko Ida; e, de Sapezal, Tomohiro Miyamoto.

Encerramento do ano letivo de 1963, em frente à sede social da ACEPP que seria
inaugurada no ano seguinte
Com a evolução dos tempos e para dar melhores condições de vida para os filhos, o êxodo rural contribuiu muito para
fechamento em definitivo do internato do Shōgakusha, em 1968. O sobrado foi derrubado e parte do amplo refeitório
foi transformado em duas salas de aula para o nihongakkō. A casa térrea que servia de moradia do professor foi
mantida.
Em 1969, Osamu Masada veio diretamente do Japão para desempenhar a função de professor do nihongakkō. Inseriu um
novo modo de lecionar e conviver com os alunos, fomentando atividades ao ar livre, picnics e passeios de bicicleta
nos finais de semana, concursos de desenho e artes, observação da natureza, entre outros. Permaneceu em Paraguaçu
Paulista até 1971(?).


PICNIC NO BALNEÁRIO MUNICIPAL (1969) COM BENTŌ COMPARTILHADO.
No centro da fotografia da direita pode ser visto o Masada sensei.
Acervo Milton Takeshi Sato (esquerda) e Mirian Marubayashi Hidalgo (direita)
Posteriormente, membros da colônia japonesa na cidade se tornaram professores: srs. xxx Seo e xxx Orikassa. Por
volta de xxxx, o nihongakkō encerrou suas atividades pela dificuldade em conseguir professor e pela pequena demanda
de alunos interessados em aprender o idioma japonês.
Em 1995 houve a demolição total das construções de madeira para a edificação da nova e ampla sede social da ACEPP.