MEMÓRIA DA HISTÓRIA
Texto de Takahiko Hashimoto

A foto da década de 50 retrata parte dos patriarcas das famílias que formavam a colônia japonesa da época.
Foto/Acervo: Família Moriyama
Ao se escrever a história de Paraguaçu Paulista, a partir dos anos vinte do século passado, não se pode fazê-la
ignorando a participação da colônia japonesa.
Com protagonismo em algumas áreas como a agricultura, mas também com grande influência em outras como o
comércio, a política, a educação, o esporte, e outros setores, a atuação dos imigrantes e seus descendentes está
umbilicalmente ligada ao desenvolvimento do município.
Como disseminado através de fontes diversas, a imigração japonesa teria acontecido a partir de 1925, quando foi
criada a Colônia Bunka.
Duas informações que emergiram das pesquisas, podem trazer dúvidas em relação a esse pioneirismo migratório:
- Segundo Camargo - 1952, citado por Maria Sílvia Moraes Nórcia Morelli em sua
dissertação de mestrado - 1988, o
município de Conceição de Monte Alegre, no censo de 1920, tinha 170 italianos, 218 portugueses e 21 japoneses.
Lembra-se que o município de “Paraguassú” foi instalado no dia 12 de março de 1925 e, portanto, em 1920 ainda
era um povoado que pertencia a Conceição de Monte Alegre. Neste ano, a pequena vila que surgira ao redor da
estação ferroviária, com o nome de Moita Bonita e que iria se transformar em 1923 num distrito, tinha pelo
cadastro, apenas 25 prédios.
O pioneirismo caberia então, aos 21 anônimos japoneses cadastrados? Eles moravam na sede do município -
Conceição de Monte Alegre? Ou, na zona rural do município, como no então povoado da futura Paraguaçu Paulista?
Quem eram eles?
- O historiador Luiz Carlos de Barros, se referindo aos anos 20, afirma que:
“No município de Conceição de Monte Alegre, residiam as famílias: Ito (Namishiro), Kobo (Shiugi), Kido
(Kinsako), Morooka), e outras. Os Ito tocavam lavoura no bairro do Sapé; os Kobo, os Kido e os Morooka exerciam
as mesmas atividades, só que lá para os lados do Borá.”
Se isso aconteceu antes de 1925, eles também poderiam ser considerados os primeiros, inclusive, alguns deles ter
feito parte dos 21 japoneses, da estatística de 1920. Hipótese plausível, pois se o período fosse pós 1925, o
autor teria mencionado município de Paraguassú, que já passara a existir a partir de 12 de março de 1925.
Lembra-se que Conceição de Monte Alegre só perde a condição de sede de município em 1933, herança assumida por
Sapezal.
Portanto, pela primeira revelação é incontestável a presença dos japoneses na região, já no início dos anos
vinte sem, no entanto - por ser censo, permitir saber os nomes dos mesmos. A segunda referência, apesar de
trazer alguns nomes, não é definitiva em relação ao período correto e, portanto, levanta dúvidas, trazendo
elevado grau de incerteza.
Assim:
- Pela impossibilidade de nomear, ainda que se reconheça a existência dos 21
japoneses/descendentes em 1920;
- Como sabidamente, a grande onda migratória, teve início a partir de 1925; e,
- Que as pesquisas mostram que neste ano ocorreram a ocupação e a formação das
colônias da Bunka, do Ribeirão Grande e da Água da Lebre - Colônia Taiyo, sem que se possa priorizar um local ou
bairro como pioneiro.
Chega-se à conclusão de que 1925 pode ser considerado como o ano do início da saga da imigração japonesa em
terras paraguaçuenses, pela relevância quantitativa ocorrida e pela diversidade das áreas ocupadas. Dando-se, no
entanto, o devido crédito e manifestando o respeito aos que marcaram presença na época anterior à citada
data.
Para se dimensionar a evolução quantitativa das correntes migratórias, ainda de acordo com Camargo - 1952, para
uma população de 24.358 habitantes em 1.940, Paraguaçu tinha 224 italianos, 246 portugueses e 1.843 japoneses.
Correspondiam então, os nipônicos, 7,5% da população total.
Originalmente a ocupação teve uma nuance incomum. Uma corrente migratória era procedente dos Estados Unidos, de
famílias que frustradas na primeira opção escolhida, buscavam um segundo país como destino. Essa vertente foi
liderada por Junkiti Mori e Tokow Yamada que na primeira metade dos anos 20 adquiriram as terras, que divididas,
começaram a serem trabalhadas em junho de 1925, pelos conterrâneos “americanos”, formando a Colônia Bunka.
A outra corrente, que também se instalou em Paraguaçu Paulista na mesma época do grupo dos EUA, foi a formada
pelas primeiras levas de imigrantes, que tiveram como destinos iniciais outras localidades, sobretudo do Estado
de São Paulo. São principalmente aqueles que após alguns anos de trabalho nas fazendas de café, tinham recursos
financeiros para o início de uma nova vida. Essa vertente espalhou-se por vários bairros rurais, como Ribeirão
Grande, e Água da Lebre - Taiyo. Várias famílias, como a de Kiujiro Marubayashi – em 1925, se instalaram no
Ribeirão Grande, enquanto outro núcleo formado por famílias como a de Matataro Hashimoto – esta em 1926,
fixou-se no bairro da Água da Lebre - Colônia Taiyo.
É citado que em 1933 já existiam mais núcleos espalhados como o do Cristal, sendo crível que, pela data,
possivelmente também fizeram parte da primeira fase pioneira em 1925/1926
centro de concentração humana.
Após o ciclo do café e o apogeu agrícola com o ciclo do algodão, após o esgotamento das terras e condições
desfavoráveis em relação à economia mundial da cotonicultura, a cidade e a colônia entraram numa fase de
dificuldades. Esse período - final dos anos 40 a início dos anos 50, marcou o começo da evasão das famílias em
busca de novos horizontes. Muitas mudaram para o Estado do Paraná, atraídas pelas terras férteis
recém-desbravadas. Outras famílias buscaram a capital – São Paulo, não apenas pelo objetivo de alternativa
econômica, mas pressionadas também pela preocupação da continuidade da educação de seus filhos em busca de
formação superior.
Mas, as famílias que permaneceram – muitas até hoje, continuaram a contribuir para o desenvolvimento desta
terra.
Desde 1925 até os dias atuais, pelo exemplo de dedicação e eficiência no trabalho, comportamento ético e moral,
preocupação com o coletivo, importância com a educação, responsabilidade, resiliência e outros valores, a
colônia japonesa tornou-se respeitada e considerada no meio da sociedade paraguaçuense.
Com certeza é a herança mais valiosa deixada para as futuras gerações.