Michiaki Sasaki
Escrito por ROBERTO CARLOS CAÇÃO. Capítulo do livro “Reminiscências: vultos históricos de Paraguaçu
Paulista” (2019), Reprodução autorizada
Paraguaçu vive há alguns poucos meses um fato inusitado: a Farmácia Sasaki encontra-se presentemente fechada.
Para quem, nos últimos setenta e dois anos, a viu sempre aberta, a atender com a máxima boa vontade, presteza e
dedicação, a qualquer hora, o fato causa bastante estranheza. Muitos dos seus clientes estão até pensando que
ela deverá encerrar atividades, depois de tantos anos de profícuo trabalho dos seus proprietários, aplicando
injeções no estabelecimento ou em domicílio e aviando receitas de médicos (alguns dos quais muito poucas pessoas
da cidade conheceram ou de que, pelo menos, ouviram falar, como o Dr. Artur Ebel, Dr. Fernando Pimentel, Dr.
Oldack Noya, Dr. Fausto Carvalho, Dr. Fausto Mendes, Dr. Roque Figliola, Dr. Tiberê Rezende, Dr. Carlos
Bitencourt, Dr. Pedro Figueiredo, Dr. Marcon, Dr. Edivaldo Hassegawa, Dr. Guaracy e Dr. Vargas, que por muitos
anos aqui conviveram e clinicaram). Mas, Graças a Deus, estão muito enganados. O proprietário que a tem dirigido
nos últimos setenta anos, sempre com a desenvoltura e a dedicação de quem conhece o ofício, espera para muito
breve retornar às atividades, aos noventa anos de idade e setenta e dois na profissão. Uma vontade imensa de
voltar é o elixir que o estimula nesse intento, o qual, sinceramente, acreditamos que alcançará, pois, a difícil
fase da doença que o acometeu já está ultrapassada, esperando-se apenas os detalhes finais do processo de cura.
A reabertura do mais antigo estabelecimento comercial da cidade (setenta e dois anos de existência, com a
direção da mesma família) é coisa que se dará dentro de mais apenas alguns poucos dias.
Michiaki Sasaki, imigrante japonês, nascido aos trinta de agosto de 1921, na cidade de Nagano, no Japão, é filho
de Issuke Sasaki e de D. Miyoshi Sasaki. A família chegou a Santos (SP), no ano de 1928, na expectativa de
melhores condições de trabalho e fortuna. Como era bastante comum na época, para com quase todos os imigrantes
que aqui chegavam, foram logo encaminhados para serem colonos em lavoura de café, em região onde a atividade já
estava plenamente assentada. Assim, foram contratados para trabalhar na Região Mogiana, na cidade de São Simão
(SP), onde se aclimataram e adquiriram os necessários conhecimentos sobre a cafeicultura e lavouras de
subsistência, permanecendo na Fazenda Fonseca pelo período de dois anos. Após esse tempo, foram convidados a se
transferirem para a Alta Sorocabana, mediante um ardil, convencidos a para ali se dirigirem (o proprietário do
imóvel mostrou-lhes uma fotografia de lavoura de café, com os cafeeiros já de porte adulto e em franca
produção). Aceitaram e, ao chegarem ao imóvel (Fazenda Bunka, no município de Lutécia), em 1930, constataram que
a lavoura existente não tinha aqueles característicos, que se tratava de plantio recente e que demoraria alguns
anos para produzir. Mas, a falta de recursos para alterar a situação forçou-os a ali permanecerem, o que lhes
custou alguns anos de imenso trabalho e poucos resultados.
Na Fazenda Bunka, Michiaki foi iniciado na atividade escolar. Considerando-se o isolamento a que a colônia
estava condicionada, especialmente pelos próprios costumes a que se submetiam os imigrantes japoneses, não havia
ali ainda escola em língua portuguesa. Propiciavam-se apenas conhecimentos da língua japonesa, além do que esta
era uma exigência de sua índole: o conhecimento da grafia e interpretação de seu idioma.
Se o Sr. Issuke já não tinha muita inclinação para a atividade agrícola, o estratagema utilizado para atraí-lo e
os parcos recursos que dela resultaram só o fizeram desgostar-se ainda mais com a agricultura. Tendo conseguido,
mediante grande economia, depois de quatro anos de trabalho estafante, algum recurso suficiente para abandonar a
atividade, transferiu-se para Paraguaçu. Aqui chegando, em 1934, voltou-se para o comércio, tendo verificado o
grande desenvolvimento que a cidade apresentava. Montou então um armazém de secos e molhados. Alugando um prédio
de madeira pertencente ao Capitão Generoso Pereira da Costa, localizado na esquina das Ruas Sete de Setembro e
Doze de Março (onde hoje está o Bradesco), no qual até pouco tempo antes havia funcionado o cinema de cidade,
instalou ali o estabelecimento, que era operado com o auxílio dos filhos, entre os quais Michiaki. Este, com a
vinda para a cidade, teve então a oportunidade de estudar. Foi matriculado e passou a cursar o primário na
escola então existente na cidade: o Grupo Escolar. O mesmo era um prédio de madeira localizado na esquina das
Ruas Quinze de Novembro e Treze de Maio (hoje Irmã Gomes), onde estão hoje o Banco do Brasil (ex-Nossa Caixa) e
o Departamento de Educação (no antigo Forum). Era então diretor o Prof. Luiz Gonzaga de Camargo, e foram seus
professores D. Maria Gambier Costa (1º ano), D. Aurora Simonetti (2º ano), Prof. Mostério (3º ano) e D. Elíria
Simões (4º ano). Terminado o curso primário, em 1938, Michiaki foi enviado para São Paulo, para cursar o
ginasial. Passou a residir num pensionato pertencente à Sra. Kishimoto (sogra do Dr. Mitsuo Marubayashi) e
estudou durante dois anos no Ginásio Santo Alberto, de direção religiosa (católica). Não satisfeito, Michiaki
resolveu deixar os estudos e voltar para Paraguaçu.
A Casa Sasaki permaneceu no mesmo local (Rua Sete de Setembro) até o ano de 1939, ocasião em que o Sr. Issuke
transferiu suas instalações para a Rua Pedro de Toledo, nº 31, um prédio de tijolos que pertencia ao Sr. Kiujiro
Marubayashi (pai do Hissagy). O estabelecimento nesse local apresentava uma novidade: tinha agora duas seções, a
do armazém e outra nova, que constituía uma farmácia. Surgiu assim, no ano de 1939, naquele local, a Farmácia
Sasaki que, de imediato, começou a dar melhores resultados financeiros que a parte do armazém, que foi encerrado
em 1942. A área ocupada com o mesmo, daí em diante, foi alugada ao Sr. José Caran, sendo utilizada para
alfaiataria. Já em 1946, contando com o trabalho e a orientação de Michiaki, o estabelecimento foi transferido
para a Rua Sete de Setembro, nº 433, local onde já havia existido uma oura farmácia (a Neofarm pertencente ao
Sr. Loureiro), prédio que houvera sido adquirido pela família Sasaki e onde o estabelecimento está localizado
até hoje.
Assim, ao voltar de São Paulo, Michiaki, aos dezenove anos, optou por dedicar-se ao ramo farmacêutico, na
propriedade familiar. Visando primeiro a preparar-se, obtendo melhores conhecimentos da atividade, achou melhor
trabalhar para um profissional sobejamente conhecido na cidade como competente. Assim, engajou-se como
funcionário do Sr. Geraldo Arantes, em seu estabelecimento montado também na Rua Sete de Setembro, esquina com a
Doze de Março (onde está hoje parte do Bazar Modelo). Com o mesmo, permaneceu pouco mais de um ano e, muito bem
orientado e dominando os principais conhecimentos práticos do ramo, em 1941, voltou à farmácia familiar, onde
permanece até hoje.
Em 1943, Michiaki casou-se com a D. Tomiko Toyashima Sasaki, pertencente à família residente em Bastos (SP).
Desse casamento resultou o nascimento de suas filhas Fumy (1945), Kahoe (1947), Edir (1950 - falecida) e Érica
(1966). Como se observa, há um intervalo de tempo de dezesseis anos entre as duas últimas, fato incomum e até
mesmo surpreendente, originado de uma gravidez não esperada e que teve em seu desenrolar um acontecimento que
chamou atenção. Ao sentir os primeiros sintomas, D. Tomiko consultou o Dr. Artur Ebel e o mesmo diagnosticou
serem os mesmos resultantes de um grave problema com a tireoide, encaminhando-a para São Paulo, onde foi
entregue aos cuidados do Dr. Alípio (ao tempo, famoso médico da capital). Mantendo o diagnóstico, o cirurgião
optou pela operação, que foi realizada com sucesso. Entretanto, D. Tomiko recuperou-se desse processo, mas
persistia o mal-estar anterior. Foi então levada a Presidente Prudente, onde outro médico atestou e confirmou a
sua gravidez, que, a partir daí, teve desenrolar normal. Entretanto, ficou a dúvida: foi uma feliz coincidência
o primeiro diagnóstico ou houve erros dos profissionais?
Michiaki não tem boas lembranças dos anos de 1940 a 1947. Inicialmente por causa das restrições impostas às
pessoas de origem japonesa, em virtude do Decreto Federal nº 383, de 18/04/1938, com suas proibições (falar o
idioma em público, formar qualquer tipo de associações, receber o ensino da língua e da escrita japonesa,
acompanhar a transmissão de programas de rádio e a publicação de livros, jornais e revistas nesse idioma).
Depois, com o rompimento de suas relações com o Japão, em 1942, o Governo Federal passou a dificultar o
movimento de japoneses pelo território, a efetuar a apreensão de aparelhos de rádio e a impedir a entrada de
mais imigrantes no país. Primeiramente, tais medidas visavam apenas ressaltar o nacionalismo brasileiro,
reprimindo a cultura de imigrantes japoneses e alemães, depois, a proteção dos interesses nacionais e até mesmo
dos próprios imigrantes. Levado a tomar medidas em virtude do desvirtuamento das finalidades de uma entidade
chamada “Shindo Renmei” (que significa Liga do caminho dos súditos), originalmente criada por Junji Kikawa,
ex-coronel do exército japonês, com o auxílio até da Igreja Católica, para ajudar comunidades japonesas em
dificuldades e que, depois de 1944, passou a interferir diretamente na colônia japonesa para promover atividades
de sabotagem, procurando dificultar a produção de seda (usada para a confecção de paraquedas) e de hortelã (o
mentol era utilizado para tornar a nitroglicerina mais potente).
Aumentando a intensidade de suas ações, a “Shindo Renmei”, no final e após o encerramento da guerra, passou a
agir junto à colônia nipônica, procurando incutir nos seus membros as ideias de seus chefes, que apregoavam que
a derrota japonesa na guerra era resultado de mentiras promovidas pelas autoridades, que objetivavam
desmistificar o imperador e promover o desânimo da colônia. Com isso, na visão dos mesmos, os imigrantes
japoneses estavam divididos em:
- Kachigumi - mais numerosos, na maioria integrantes das classes mais pobres e que acreditavam terem sido
vitoriosos na guerra. Ameaçavam e perseguiam os que assim não pensavam. Depois de comprovados os erros de suas
ideias, muitos deles se suicidaram, porém, chegaram a assassinar algumas vítimas e a ferir muitas.
- Makegumi - pelos acima também chamados “derrotistas”, “corações sujos” ou ainda “não esclarecidos”, por crerem
ter sido realmente derrotados. Eram, em sua maioria, os membros mais prósperos da colônia e mais bem adaptados
ao Brasil.
A família Sasaki incluía-se entre os últimos e sofreu, além das duras restrições impostas pelos governantes
nacionais e de algumas discriminações por parte da população não japonesa, também as fortes pressões e ameaças
dos integrantes da “Shindo Renmei”, sem, contudo, maiores consequências.
Michiaki, além excelente e dedicado profissional, cidadão respeitável e progressista, é uma das maiores
personalidades que sempre promoveram e dignificaram o esporte local. Já antes de 1940 (aproximadamente em 1937),
junto com amigos, roçaram e carpiram uma área de terras, localizada no final da Rua Paula Souza (onde foi a
Sanbra e hoje é a Cerealista Garms), a qual passaram a usar como campo de beisebol e para treinamento de
atletismo. Nosso homenageado sempre foi um praticante do salto em extensão, arremesso do dardo e corridas de
velocidade. Posteriormente, com a criação da ACEP (por volta de 1939), inicialmente localizada numa quadra da
Rua Pedro de Toledo, entre as Ruas Caramuru, Marechal Deodoro e Barão do Rio Branco, a prática dessas
modalidades (beisebol e atletismo) passou a ser ali efetuada). Já em 1945 ou 1946, a ACEP (Associação Cultural e
Esportiva de Paraguaçu) foi definitivamente estabelecida onde hoje se acha (com suas eficientes e excelentes
instalações), que também foi campo de treinamentos e disputas de Michiaki, nas modalidades acima. Ressalte-se
que, em virtude das disposições governamentais proibindo a instalação de associações originárias da colônia
japonesa, a área de terras ocupada e adquirida pela ACEP foi primeiramente registrada em nome dos Srs. Issuke
Sasaki, Kenda Nagamatsu, Araki (de Lutécia) e Ujiro Nishiura, sendo posteriormente regularizada, uma vez
extintas as restrições. Outro esporte que praticou e se destacou foi o judô. Faixa Preta, 3º Dan, constitui-se,
junto com Kimura e Massaro Nagamatsu, num dos expoentes da modalidade na cidade, muitas glórias para ela
conquistando.
Mas, na realidade, o esporte a que mais se dedicou e no qual mais glórias obteve foi o tênis. Juntamente com
Orlandinho, Didi, Nishiura, Carlito, Dodô, Alcides Cassis, Benedito Pinheiro, Vado Ribeiro, Tadashi Nishiura,
João e Orlando Roque, formou quartetos que, por muitos anos, trouxeram vitórias, títulos e glórias que
engrandeceram o esporte paraguaçuense como nenhuma outra modalidade alcançou. Em Jogos Regionais, chegaram à
extrema façanha de apresentarem o cartel de campeões por DEZESSETE vezes consecutivas, fato que nenhuma outra
cidade conseguiu suplantar. Quer em Jogos Abertos do Interior (terceiro lugar nos jogos realizados em Marília),
quer nas competições do Troféu Bandeirantes (várias vezes finalistas, onde seus adversários foram sempre as
grandes cidades do Estado, como Bauru, Ribeirão Preto, Campinas e Santos), quer ainda com esplêndidas vitórias
em torneios outros realizados nos Estados de São Paulo e Paraná, representaram condignamente a cidade. Jogou
tênis até o ano de 2005, com a idade de 84 anos.
O Prefeito Municipal, Dr. Carlos Arruda Garms, por indicação da vereadora D. Almira Ribas Garms, prestou
justíssima homenagem a nosso biografado. Por Decreto Municipal de 21/02/2008, denominou “FARMÁCIA CIDADÃ
MICHIAKI SASAKI” ao dispensário municipal de medicamentos, inaugurado em 14/03/2008.
Assim transcorreu até hoje, em breves traços, a vida desse admirável homem que é Michiaki Sasaki. Nunca deixou
de ser o profissional competente, o comerciante honesto e atencioso, a atleta dedicado, o pai e marido amoroso,
o cidadão produtivo e o amigo sincero que sempre foi. A cidade espera o seu retorno às atividades. Não pode ela
prescindir de seu mais antigo estabelecimento comercial e de seu mais experiente farmacêutico. Juntamo-nos a
suas filhas, genros, netos, bisnetos, fregueses e amigos e saudamos sua volta.
Paraguaçu Paulista, outubro de 2011