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A Colônia Japonesa em Paraguaçu Paulista e a Valorização da Educação

Texto de Takahiko Hashimoto



Se os comentários anteriormente explicitados sobre o bom desempenho educacional do segmento com ascendência japonesa em um universo amplo que é Brasil ou mesmo ao Estado de São Paulo – no caso da USP, as mesmas conclusões caberiam no âmbito mais restrito de Paraguaçu Paulista?

Uma pesquisa empírica, baseada em dados e fotografias que retratam o período de 1949 a 1960, demonstra claramente que sim, aliás, de forma mais contundente ainda.

Em 1950 a população do município era de 24.543 habitantes e em 1960 de 23.752 habitantes. (SEADE – Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados. Portal de Estatísticas do Estado de São Paulo. Consulta em setembro de 2021). O Censo Demográfico da Colônia Japonesa iniciado em 1958 mostrava que Paraguaçu Paulista tinha, na época, entre imigrantes e descendentes, 1.427 pessoas. (Comissão de Recenseamento da Colônia Japonesa, 1964, p. 12).

Isto correspondia a 5,81%, em 1950, e a 6,00%, em 1960, da população geral. Assim, se for conhecida a proporção de nisseis que frequentavam as escolas, pode-se avaliar quão relevante era a participação dos mesmos.

Em pelo menos três momentos diferentes pode-se vislumbrar esta proporção, de forma mais concreta:

1º - Na foto de formatura da 4ª Série Ginasial do Colégio Paraguaçu – escola privada, em 1949;

2º - Na foto do 2º Ano Primário do 1º Grupo Escolar – 1957, em que do total de alunos, 31,25% eram descendentes de japoneses; e,

3º - Na foto de formatura da 4ª Série Ginasial do CENE “Diva Figueiredo da Silveira” – 1960, em que dos 26 (vinte e seis) formandos que aparecem na imagem retratada, 13 (treze) eram descendentes, correspondendo a 50% do total. No entanto, eram duas turmas de 4ª série, perfazendo um total de 46 (quarenta e seis) concluintes, sendo 14(catorze) descendentes, o que representava 30,43 %.


FOTO Nº 1

Formatura 4ª Série Ginasial do Colégio Paraguaçu. 1949.
Identificação das pessoas feita por Nobuco Hashimoto Shiraishi
Da esquerda para a direita, as garotas:
Neuza Pereira Cassiano, Nobuco Hashimoto, Husako Shiraishi, Maria José Ana Calderaro, Deise Pereira Cassiano, Kioko Takekawa e Júlia Luiz Briso.
Em pé:
Cleómenes Mengatti, Issamu Takahashi, Joel Frota Rodrigues, Shozo Itiki, Lysias Frederico Andersen, Márcio Prudente Cruz, professora Aydée Chaves Siqueira, diretor Célio Rodrigues Siqueira, Paulo Hirata, Luíz Quijada, Mitsuo Marubayashi, Américo Marcos Campos, Massaru Takahashi, Akitoshi Yoshinaga e professor Sérgio Martorelli.
Acervo Mirian Marubayashi Hidalgo.


Apesar de na foto haver o registro de 19 formandos, o testemunho da professora Nobuco Hashimoto – integrante da turma, revela terem sido em 30, os concluintes. Baseado na relação nominada por ela, e considerando que os nisseis eram em 9 (nove) – todos aparecendo na foto, a proporção de descendentes corresponderia a 30% (trinta por cento) do total. No entanto, sabidamente a instituição se caracterizava principalmente na fase inicial de funcionamento, pelos estudantes oriundos de outros municípios. Dos 30 (trinta) da turma, 6 (seis) seriam alunos internos. Portanto, como se está analisando o contexto de residentes em Paraguaçu Paulista, recalculando-se com o total de 24 (vinte e quatro alunos), a porcentagem de descendentes passa a ser de 37,5%.

A quem se interessar, a listagem completa dos 30 (trinta) nomes pode ser consultada no perfil da professora Nobuco Hashimoto Shiraishi.
Importante observar que, na ocasião, o Colégio Paraguaçu era a única alternativa na cidade, pois a Ginásio Estadual só iniciara as atividades em 5 de agosto daquele ano - 1949, sem oferecer a 4ª série ginasial.


FOTO Nº 2

1º Grupo Escolar. Turma: 2º Ano 1957
Identificação das pessoas feita por Nobuco Hashimoto Shiraishi
Sempre da esquerda para a direita:
Ùltima fileira: 1º - Shibata, 5º - Tubone.
Central: 1º - Takeshi Kawazu, 3º - Milton Kobo, 6º - Minoru Misse, 9º - Taira, 12º -?
Primeira: 5º - Nelson Tomita, 10º - Manabu Saito, 11º - João Carvalho Matsushita Professora: Nobuco Hashimoto
Acervo Manabu Saito.



FOTO Nº 3

CENE. Turma: 4º Ano Ginásial. 1960
Identificação das pessoas feita por Carlos Izumi Moriyama e Takahiko Hashimoto
Sempre da esquerda para a direita:
Agachados: Antônio Simões, Dênis Maurilio Maricato, Shoji Ikemoto, Edson Gonçalves Bonfim, Moacir Ângelo, Reynaldo Menk e Nazário dos Santos.
Em pé: Antônio Moreni, Júlia Yoshiji, Mitsuo Miyazawa, Maria Yukie Shiwa, Seiko Yagi, Najla Bayoud, José Enaldo Paes Leme, professor João Pereira Hortal, Ana Maria Teixeira, Neusa Simonetti, Sílvio Machado Bruschi, Toshinobu Yoshino, Tieko Yagi, professor Marino, Yoshitaka Miura, Takahiko Hashimoto, Hiroshi Kakazu, Abelardo Gargel, Jodi Yoshida, Carlos Izumi Moriyama e Seikiti Okuma.
Acervo Takahiko Hashimoto.


Considerando-se, como visto anteriormente, que a proporção de japoneses em relação à população paraguaçuense era de 5,81% em 1950 e 6,00% em 1960, causa surpresa os altos índices de proporção demonstradas nos 3 (três) exemplos citados, respectivamente 37,50%, 31,25% e 30,43%.

Pode-se concluir que praticamente todos de origem nipônica frequentavam os vários níveis escolares, lembrando ainda que a repetência e o abandono de frequência eram quase nulos. Na época, no geral, muitas crianças não se matriculavam na escola e ficavam fora do sistema. Também e infelizmente, a progressão escolar desde o ensino primário até o ginasial se afunilava brusca e rapidamente. Assim sendo, poucos conseguiam completar o ensino ginasial, mas 1/3 deles - aproximadamente, eram nisseis.

No cálculo da foto do CENE “Diva Figueiredo da Silveira” relativo ao curso ginasial, deve ser pontuado que, em 1960, o Colégio Paraguaçu mantinha também turma da 4ª Série do Ginásio e, portanto, seus formandos deveriam ser acrescidos no raciocínio. Infelizmente, a inexistência de fotos ou de outras fontes, que possam trazer informações mais precisas, impede que seja feita sequer uma estimativa confiável dessa proporção no Colégio Paraguaçu, no ano em pauta.

Sabe-se, apenas, que o número de alunos descendentes na Instituição era também bem significativo. Isso pode ser comprovado nas fotos da comemoração dos 50 anos da Imigração Japonesa no Brasil - 1958, em que o Colégio Paraguaçu prestigiou a data com um desfile.


Colégio Paraguaçu. 1958. Desfile na Avenida Paraguaçu Comemorativo aos 50 Anos da Imigração Japonesa.
Acervo Umeko Marubayashi.


Colégio Paraguaçu. 1958.
(Visível apenas duas das três fileiras originais)
Desfile Comemorativo na Avenida Paraguaçu aos 50 Anos da Imigração Japonesa.
Acervo Humihiro Nishizawa.


Nas duas fotos aparecem as alunas – à frente e os alunos em seguida, em dois grupos formados exclusivamente de descendentes de japoneses. Como não se conhece o total de matriculados na escola, é impossível se estimar o porcentual, mas pode-se inferir ser bem representativa a proporção dos nisseis que estudavam no Colégio Paraguaçu.
Para melhor contextualização do que acontecia em Paraguaçu, neste período de 1949 a 60, é oportuno trazer-se alguns dados da educação brasileira da época.

As vastas áreas rurais e o desempenho principalmente do Norte e Nordeste brasileiro, contribuíam pesadamente para os péssimos resultados apresentados. Evidentemente no Sudeste, a situação não era tão precária, mas longe dos padrões aceitáveis mesmo para a época.

Assim, a precariedade quantitativa do ensino brasileiro no período analisado, tendo como contraponto o culto da colônia japonesa à educação e o reconhecimento da mesma como o elemento transformador na vida de todos, permitiu que o desempenho quantitativo dos descendentes se destacasse.

A dimensão expandida neste aspecto, pode ser observada no Censo da Colônia Japonesa de 1958, onde a proporção de descendentes de japoneses no Brasil com mais de 10 (dez) anos que não sabiam ler nem escrever era de apenas 0,4% na zona urbana e 0,9% na zona rural. Vislumbra-se assim a percepção sobre a importância da educação, assumida pelos orientais. (Cardoso, 1995, p. 137).

As primeiras escolas criadas por iniciativa dos pioneiros, foram as da zona rural, como as da Colônia Bunka - 1929, do bairro da Água da Lebre (Colônia Taiyo) – 1930, e do bairro do Ribeirão Grande - 1931.

Tendo como motivação imediata, ser local para o ensino da língua japonesa, em pouco tempo o foco se transferiu para a educação formal oficial, favorecendo indistintamente toda a população local. Portanto, os vários núcleos de colonização japonesa foram diretamente responsáveis pela disseminação das escolas oficiais rurais do município, pela pressão natural da demanda e pela facilidade oferecida ao Estado dos prédios já construídos pela colônia.

Em 1933, estavam matriculadas nas 3 (três) escolas citadas, 123 alunos, mostrando a importância dos núcleos pioneiros e o impacto na educação municipal.

Mais tarde, pela necessidade da continuidade dos estudos, surgia a escola da cidade, o Jiyū Gakuen – em 1938, abrangendo Internato, Escola de Língua Japonesa e Escola de Ensino Fundamental.


O RECONHECIMENTO DA DEDICAÇÃO

No dia 18 de junho de 1958, como ponto máximo das comemorações dos 50 anos da Imigração Japonesa no Brasil, a Colônia de Paraguaçu Paulista entregava para a comunidade o Monumento - Relógio construído na área do futuro Jardim das Cerejeiras.

A saudosa professora Hilda Faria Bacchi em seu discurso na inauguração, sintetizava com rara felicidade, a relação e o pensamento dos japoneses e seus descendentes em relação à educação. Apesar de carregado pelas tintas da emoção do momento, suas palavras não deixam de ser um testemunho da realidade de uma experiente educadora.

Falando inicialmente sobre os alunos:

“....refiro-me aos de origem nipônica – pela vontade férrea de vencer, pela assiduidade, pela disciplina exemplar e sobretudo pelo grande respeito ao mestre.”

Em seguida se referindo aos pais:

“Congratulamo-nos com seus pais, pela alta compreensão que têm, do problema educacional. Sabem eles avaliar muito bem que, a instrução, é a chave que soluciona todos os problemas da vida.

E não medem sacrifícios para enviar seus filhos à escola: não veem distâncias, não avaliam as intempéries, não calculam a falta de braços com que ficam na tarefa da lavoura. O único fito é que seus filhos não faltem as aulas: que não deixem de receber diariamente, a hóstia sacrossanta do saber.

E digo mais, durante os 17 anos que labuto nas escolas, jamais me passou pela lembrança, um aluno sequer dessa origem, que tenha dependido da Caixa Escolar.
Embora sejam famílias humildes e numerosas, nota-se nelas, o alto brio que envergam, dando assim grande exemplo, não só a seus filhos, mas, a muita gente, que a conquista do ideal consegue-se pelo suor do trabalho honesto.

Não importa seja ele quem for. Os pais mourejam nos campos, calejando suas mãos na enxada, sacrificando a própria saúde, mas com o coração feliz, na certeza que seus filhos lá nos últimos anos das escolas superiores colhendo os frutos de uma vida melhor, saberão um dia, avaliar a grandeza do pequeno trabalhador.” (Jornal A Semana, 22.06.1958)


Aliás, é muito significativo e coerente com tudo que foi exposto até o momento, que além das autoridades constituídas do município e dos membros da Comissão Executiva dos Festejos de Comemoração dos 50 anos de Imigração, uma professora tenha sido a única pessoa a discursar no momento solene de inauguração do Monumento. Certamente de maneira consciente, ao convidar a professora Hilda Faria Bacchi, a Comissão Executiva manifestava todo o seu respeito e consideração à Educação, como o elemento transformador na vida de todos.

Se toda a Colônia Japonesa de Paraguaçu Paulista valorizava (e valoriza) a Educação pela própria herança cultural como aqui apresentado, por justiça, não se pode deixar de destacar três de seus membros: Masaji Tanigushi, Denshiro Saito e Hissagy Marubayashi.