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A Educação na Cultura Japonesa. Os Imigrantes e a Educação

Texto de Takahiko Hashimoto



Nas décadas dos anos setenta e oitenta era recorrente uma brincadeira em que se dizia que para garantir a sua vaga numa universidade de excelência, o vestibulando precisava matar um “japonês”. A piada carregava uma presunção equivocada da inteligência privilegiada dos descendentes e não considerava a possibilidade da influência dos aspectos culturais.

Folclore à parte, acompanhamento estatístico da época, do alunado da USP – Universidade de São Paulo mostrava que esta percepção de melhor desempenho no vestibular dos nipo-brasileiros tinha razão de ser, pela elevada concentração deste segmento da sociedade entre os matriculados.

Apesar de menos comentado, por incorporado ao cotidiano, dados mais recentes permitem observar que esta peculiaridade permanece. Em junho de 2013, falando sobre o aniversário da imigração japonesa no Brasil, o reitor da USP – Universidade de São Paulo João Grandino Rodas afirmou que no Estado de São Paulo os descendentes representavam 3% da população e, no entanto, número proporcionalmente muito maior, de 14% dos alunos da mais importante universidade brasileira tinha ascendência japonesa. Além disso, 6% dos professores tinham a mesma origem.

Esses resultados, relativos a um recorte de excelência, dentro do ensino superior do Estado de São Paulo, são consequência de uma realidade observada já no início do processo educacional do aluno de origem nipônica.

Um estudo de abrangência nacional, com foco no ensino básico, ajuda a compreender melhor a questão. Trata-se de uma dissertação de mestrado de Daniel Lopes – pela Universidade Católica de Brasília, com coorientação de Geraldo Silva Filho e Leonardo Monastério que tem como título: Culture, Institutions na School Achievement in Brasil. Citada por Ana Estela de Sousa Pinto em publicação da Folha de São Paulo – edição de 24 de dezembro de 2017, correlaciona a ancestralidade dos alunos e os resultados obtidos, analisando-se mais de 2 milhões de provas computadas na Avaliação realizada pelo MEC – INEP, relativas ao ensino fundamental. São provas periodicamente aplicadas ao 3º ano do ensino fundamental – Avaliação Nacional de Alfabetização e ao 5º ano do ensino fundamental – Prova Brasil. Pela amplitude do universo analisado, a pesquisa é altamente confiável.

Foram estudados sobrenomes de origem ibérica, japonesa, germânica, leste-europeia, italiana e sírio-libanesa. Os melhores resultados, em Matemática, foram obtidos pelo grupo de pais de cultura japonesa. Quando analisado o 3º Ano do ensino fundamental, o desempenho em matemática de quem tem pais de cultura japonesa foi equivalente a um ano letivo à frente da média dos que têm sobrenome ibérico. Em Português, as diferenças detectadas entre pais de cultura japonesa, de cultura germânica ou de cultura leste-europeia não tinham “robustez estatística”, mas os três grupos foram superiores aos demais.

Esses resultados tornam compreensíveis, portanto, que na USP - Universidade de São Paulo, observada a proporcionalidade, a presença de descendentes fosse tão significativa, como comentado pelo reitor Rodas. Dão ainda indícios claros de que os valores culturais transmitidos nas famílias são aspectos fundamentais para o desempenho na escola.

O fato notório é que a valorização da educação, um dos pilares da cultura japonesa, foi conservada e amplificada pelos imigrantes pioneiros e transmitida para as novas gerações. Para quem quer se aprofundar na matéria, recomenda-se a leitura da tese de mestrado apresentada à USP – Universidade de São Paulo, pela professora Cristina Canto, com o título de “Descendência Japonesa e o Bom Desempenho em Matemática: Uma Reflexão sobre as Causas”, que colocou como principal hipótese a influência da cultura na construção do processo cognitivo.

Complementarmente ao aspecto cultural, pelo menos dois outros fatores influenciaram a relação colônia x educação. O primeiro, consequência de uma relação direta entre o nível de escolaridade dos pais, independentemente da nacionalidade, e o rendimento escolar dos filhos, comprovada em inúmeras pesquisas dos estudiosos da educação.

Como afirma Miyao (1980, p. 91), citado por Demartini:

“A revolução política e social iniciada na Era Meiji, em 1868, trouxe profunda transformação no regime da nação nipônica, dando prioridade à difusão da educação, difundindo-a de modo drástico, (...). Desde então o Japão emergiu de uma nação fechada, de 300 anos de isolacionismo, conseguindo rápida modernização com a introdução maciça da cultura ocidental. O japonês que viveu uma época assim peculiar sentia no seu âmago que a instrução era a coisa mais importante da vida, sobrepondo-se a qualquer outra opção. O imigrante japonês que começou a chegar ao Brasil em 1908 também foi criado nesse ambiente.”
Trecho da reportagem da Folha de São Paulo, citando Lopes, Monasterio e Silva Filho, diz que:
“A escolaridade dos imigrantes era superior à dos brasileiros quando eles chegaram ao país, no fim do século 19 e começo do 20. Entre 1872 e 1920, mais de 3,2 milhões de estrangeiros vieram ao Brasil. Em 1920, só 23% dos brasileiros sabiam ler e escrever. Entre os estrangeiros eram 52%. Dados também indicam que a escolaridade dos imigrantes japoneses superava a de outras nacionalidades.”

Pode haver alguma divergência em relação ao nível dessa escolaridade, mas não restam dúvidas de que era extremamente elevado, dentro do contexto da época no mundo. Bassanezi e Truzzi (Resistência & Integração: 100 anos de imigração japonesa no Brasil, 2008) ensinam que entre os imigrantes que chegaram em 1908, os alfabetizados eram em 98%. O autor Marcos Maurício Toba, traz em seu texto indícios que corroboram a boa formação dos oriundos da Terra do Sol Nascente quando cita uma carta enviada ao Diretor da Hospedaria de Imigrantes do Estado de São Paulo, em 22 de fevereiro de 1911. Nela o proprietário da Fazenda Boa Vista - Fabio Reis, descreve a adaptação de dez famílias, integradas por 39 pessoas e num trecho, relata que... “todos os homens e mulheres sabem ler e escrever”. (Toba, 2008, p. 180).

Uma visão de maior amplitude pode ser revelada estendendo-se o período até o início da 2ª Guerra Mundial. Utilizando os dados da Comissão de Recenseamento da Colônia Japonesa, Ruth C. L. Cardoso elaborou o quadro abaixo:

Nível Educacional dos Imigrantes de Pré–Guerra Maiores de 15 Anos.
Cardoso, 1995, p.135



Segundo a autora: “Os imigrantes já tinham um nível educacional bastante alto, que conseguiram manter sem grande deterioração para seus descendentes.”

De fato, Cristina Canto, afirma que contrariando senso comum, o movimento iniciado em 1908, não foi formado por incultos e marginalizados da sociedade japonesa. Pouco mais de 80% era constituída por membros de famílias de sitiantes, que pressionados sim pela crise que atingia o país, enfrentavam uma nova e difícil realidade econômica. Os demais, menos de 20%, constituída de comerciantes, profissionais liberais e outras profissões, vários com formação superior. No entanto, pela condição social, a boa educação formal era uma das características da corrente migratória. Aspecto nada surpreendente, considerando-se que a educação fundamental foi considerada como obrigatória no Japão em 1871, período da Restauração Meiji, mas mesmo antes da exigência legal, era amplamente difundida.

Um exemplo a demonstrar a diversidade desse perfil socioeconômico/cultural é o da família Nagano. A história da família Tsuru Nagano e esposa Sono é retratada no artigo “Percursos migratórios intergeracionais e dinâmicas de implantação de imigrantes estrangeiros no oeste paulista (1880-1950), no volume 31, n.3 (2019), do Tempo Social – Revista de Sociologia da USP. Seus autores Oswaldo Mário Serra Truzzi e João Pedro Valente, apresentam na página 178, o depoimento de Sachiê Nagano, segunda filha do patriarca e no qual se baseia, com alguns complementos adicionais, o resumo a seguir.

Oriundos da Província de Fukuoka, o casal Tsuru e Sono Nagano, com a filha Itsumi, chegava ao Brasil em 1926. Eram acompanhados pelos pais de Tsuru Nagano, Saiti e Misa Nagano, por duas irmãs de Tsuru, uma chamada Kirie e que veio com o marido, e a outra irmã solteira Shimono.

“A família recebeu auxílio do governo japonês para vir ao Brasil. Tinham no Japão um estabelecimento próprio (farmácia e casa), o que lhes proporcionou trazer certa quantidade de recursos. Por esta razão, não chegaram a trabalhar como colonos. Compraram sua própria fazenda em Lins, onde plantaram café. O casal teve mais três filhas no Brasil: Sachiê, Fumiko e Asako.” (trecho da publicação do Tempo Social)

Após poucos anos de trabalho na região de Lins, no auge da colheita, com a quebra da Bolsa de Valores de Nova York em 1929, veio a crise do café e com a desvalorização do produto, a família perdeu tudo. O recomeço foi em Paraguaçu Paulista, na Fazenda Bunka, para onde os membros se mudaram por volta de 1930/31 e deram continuidade à prática da lavoura de café e algodão.

Em 1945, por problema de saúde do patriarca, a família se mudou para Renópolis, cidade perto de Campos de Jordão, dedicando-se agora à horticultura.

Família Nagano. Foto feita pouco antes do embarque para o Brasil, em 1926.
Acervo Família Hashimoto


Sono Nagano e filhas. Fazenda Bunka - 1938
Acervo Família Hashimoto


Um paralelo interessante pode ser observado com o movimento inverso, no sentido Brasil – Japão, acentuada a partir do início dos anos 90. Os descendentes pertencentes, em sua maioria, à classe média brasileira e muitos com formação superior, deixaram e deixam o Brasil atraídos pela possibilidade de rápida acumulação de capital para a viabilização de projetos, como o da casa ou do negócio próprio aqui no Brasil. Também neste caso, os dekasseguis não se constituem de elementos com baixo nível educacional, excluídos culturalmente da sociedade.

Outro aspecto importante que, junto com a herança cultural e o nível de escolaridades dos pais, influenciou os imigrantes japoneses a estabeleceram como prioridade a educação de seus filhos, foi a situação adversa enfrentada pelos pioneiros. Diferentemente da propaganda que mostrava o Brasil como um paraíso, a realidade reforçou a ideia que uma das maneiras de crescimento social e econômico seria investir na formação de sua prole.

Assim, compreensível que, aos se estabelecerem em grupos denominados colônias, uma das primeiras ações coletivas fosse a mobilização para a construção das escolas onde havia a preocupação do ensino da língua japonesa, mas também da educação formal brasileira.

Deve-se lembrar de que essa inquietação em relação a educação existia desde a chegada ao novo país, considerando-se que usualmente os núcleos familiares eram também compostos por crianças de pouca idade e que no Japão ainda estavam fora do sistema escolar, ou mesmo apenas no início da alfabetização.

Ao se concluir este breve relato sobre o comportamento dos imigrantes em relação à educação é necessário que seja feito um importante alerta, principalmente para aqueles que tiverem o interesse em se aprofundar na questão do desempenho dos descendentes. Como pôde ser observado, um dos parâmetros utilizado foi a proporção da população de nikkeis em um comparativo com a população total, seja Brasil ou Estado de São Paulo.

É mais comum do que se imagina, quando se fala sobre a imigração, os dados de cor ou raça amarela, serem considerados como sinônimo de quantitativo de japoneses no Brasil, ao se utilizar os Censos do IBGE. Com isso, observa-se dois equívocos: o primeiro oriundo do fato de que na pesquisa do IBGE, a definição se faz por autodeclaração e assim a percepção de como se classificar torna-se muito subjetiva quando a pessoa é oriunda de casamento inter-racial e principalmente quando se refere à gerações de sanseis (terceira geração) em diante. O segundo, porque o IBGE coloca coreanos, chineses e outros, como pertencentes à raça amarela.

Para dar uma amostra das diferenças quando assim se procede pode-se citar os dados da pesquisa do Centro de Estudos Nipo-Brasileiros, realizada por solicitação e apoio da JICA - Japan International Cooperation Agency. Trata-se de um levantamento de japoneses e descendentes feito nos anos de 1987/1988.

Na ocasião foram contabilizados 1.288.000 imigrantes e descendentes no Brasil e destes, 887.000 residiam no Estado de São Paulo. Em 1988, o Brasil tinha, segundo o IBGE, 135.987.875 habitantes e o Estado de São Paulo, aproximadamente 30.000.000 habitantes. Assim, a proporção era de 0,94% no Brasil e de 2, 95% no Estado de São Paulo.

Importante salientar que nesta pesquisa do Centro de Estudos Nipo-Brasileiros/JICA, a abordagem foi realizada sob outro aspecto, conforme consta no trecho do relatório transcrito abaixo:

“Entende-se por "descendentes de japoneses" aqui referidos, todos os imigrantes japoneses e os japoneses residentes no Brasil com permanência superior a 3 meses e seus descendentes, sendo, pois, incluídos todos aqueles no território brasileiro que tenham pelo menos um ascendente direto nas condições referidas. A imigração japonesa no Brasil foi iniciada em 1908, decorridos, pois, 79 anos por ocasião da realização do levantamento de campo, mas se partiu do suposto que todos possuíam claro conhecimento da existência ou não de um japonês entre os seus antepassados, entendendo-se aqui como antepassado o consanguíneo direto. Assim, neste levantamento, o pesquisador estava instruído para perguntar a toda população incluída dentro da área de pesquisa se "havia um japonês entre os seus antepassados". Em caso de resposta afirmativa, essa pessoa era solicitada a indicar no gráfico esquemático de elaboração da genealogia a posição desse antepassado.”

Por outro lado, o Censo do IBGE apontava que, em 1988, o segmento de cor ou raça amarela era de 695.503 pessoas, correspondendo a 0,5% da população brasileira, praticamente a metade dos detectados como imigrantes ou descendentes da pesquisa do Centro de Estudos Nipo-Brasileiros/JICA e que, feito com rigor estatístico e por entidade idônea, deve ser considerado totalmente confiável.

Essa grande divergência entre as duas pesquisas se deve certamente ao critério do IBGE citado anteriormente, que leva pessoas oriundas da miscigenação étnica, já com sobrenome ocidentalizado, a não se declararem de raça amarela.